segunda-feira, novembro 30, 2009

Prova às cegas

Na revista Wine José Penin, no seu artigo inaugural de opinião, faz-nos uma pergunta em forma de provocação:"-Um vinho sem pontuação «não existe». Mas, o que é melhor, uma prova cega ou bem às claras?"

" Estou de acordo com o ponto de vista de autores como Hugh Johnson ou Michael Broadbent, que preferem provar conhecendo a marca e, por conseguinte, saber a sua história para assim poderem atribuir uma classificação mais justa..."

" grande credibilidade que a prova cega tem em relação a uma prova com rótulos visíveis é muito significativa. Acredita-se que provar um vinho sem ver a sua marca evita qualquer influência externa. No entanto, tenho tanta prática nas provas cegas como nas provas «normais», e a minha experiência profissional mostrou-me que as provas cegas são tão injustas como ortodoxas devido a diferença de factores, tanto psicológicos como físicos, para além dos casos em que duas garrafas da mesma marca nem sempre são iguais. Um dos factores psicológicos é quando o provador, ao confrontar-se com uma bateria de amostras devidamente tapadas, não se concentra no que está a provar, mas sim no que crê que está a provar..."

"...É evidente que para que um autor se possa permitir ao luxo de provar com rótulos sem perder credibilidade, é necessário um longo espaço de tempo de coerência nas suas notas, para que os leitores lhe concendam essa devida confiança. A coerência de um provador é fundamental.

"Um dos maiores erros e por conseguinte, factor desqualificador, são as contradições na prova. Este facto obrigou-me a ser mais cauteloso nas descrições de um vinho quando provo às cegas, evitando na medida do possível o «ranking» de marcas. Se a um provador se exige que seja um conhecedor de vinhos e que saiba provar, é evidente também que se deve exigir a sua independência da influência das marcas."

"Outro capítulo controverso é o número máximo de provas por sessão. Segundo a posição europeia, Robert Parker foi criticado pelo número de vinhos provados diariamente que, de acordo com os meus dados, parece que ascendiam a mais de cem copos por dia. São sobretudo os enólogos que partilham a opinião de não ultrapassar o número de 15 amostras diárias.
É natural, porque quando eles provam vários depósitos ou barricas do mesmo vinho, é mais dificil poder apreciar as diferenças quando se ultrapassa esse número. No entanto, quando se trata de provar vinhos de diferentes origens, texturas, colheitas, etc.,o exercício não é tão complicado se tivermos em conta que para o leitor é suficiente uma descrição com poucas palavras. Passei pela experiência de provar no máximo 12 vinhos nas melhores horas da manhã, ou seja, das 10h30 às 13h00. Como resultado, a descrição era mais rica em termos objectivos como subjectivos. No dia seguinte, e a mesma hora, repeti a desgustação dos mesmos vinhos e o resultado apenas coincidiu no essencial, ou seja, nos aspectos objectivos, o resto era diferente. O mais curioso é que esses aspectos objectivos da prova não desaparecem, mesmo quando se chega a provar cem vinhos numa sessão.
Alías a velocidade e a comparação entre amostras diferentes tornam-se mais fáceis devido à adopção de um ritmo mais regular, onde todos os elementos diferenciadores são, inclusive, mais apreciáveis pela comparação e pela rapidez de provar á primeira impressão, que é mais fácil d ereter na frágil memória sensorial. O momento chave onde se criam as bases da percepção e da segurança do diagnóstico começa apenas a partir do décimo copo."

In Wine

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