
Clos Apalta Colchagua Valley 2005 ( Chile)
"Os Tintos Picantes do Chile"
"Acarinhei em tempos a ideia de as uvas para um certo champagne de luxo serem individualmente escolhidas por virgens vestais, sem nunca ter suspeitado de que um dia viria a testemunhar algo parecido com essa visão mística. Quando cheguei à adega da casa Lapostolle , no vale Colchagua, no Chile, numa manhã de Março, encontrei cerca de 90 mulheres perfiladas dos dois lados de uma mesa estreita quase tão comprida como um court de ténis, a escolherem uvas cabernet uma a uma de cachos orvalhados que tinham sido colhidos a mão nessa manhã, guardando os melhores e rejeitando os estragados ou pouco maduros. Os produtores de vinho do mais alto gabarito por todo o mundo usam mesas de selecção e recorrem ao trabalho manual para desembaraçar as folhas dos cachos, mas nunca tinha visto uma coisa destas, literalmente uva a uva. As uvas em questão destinavam-se ao vinhos Clos Apalta um dos tintos de luxo que constituem a nova vaga no Chile. Este processo de selecção radicalmente meticuloso foi para mim mais uma prova de que o vinho chileno já não é só para grandes bebedeiras.
O Vale Central do chile-no meio deste país alto e descarnado, entremeados de rios e vales mais pequenos-é um paraiso para as uvas. O clima moderado pelos andes, a leste, e pelo Pacifico, a oeste, é muitas vezes descrito como um cruzamento entre o do vale do Napa e o de Bordéus. as vinhas vieram com os missionários que seguiram os conquistadores, e a importação de produtores e de castas varietais de frança, em meados do século XIX, criou um precioso recurso de viticultura.
O que nunca chegou ao Chile foi a filoxera, a doença que depois devastaria grande parte das vinhas do mundo. Havia suficiente matéria bruta, apesar de ter continuado subaproveitada até ao fim da era Pinochet, quando as adegas domésticas começaram a olhar para o mercado internacional, e o capital estrangeiro de negociantes do vinho começou a alimentar o Vale central.
Alexandra Marnier-Lapostolle, cujo bisavô inventou o Grand Marnier , começou a desbravar o chile no início dos anos 90, e depois trouxe michel Rolland, o reputado e ubìquo enólogo. Em 1994, ela e o marido , Cyril de Bournet, fundearam a casa Lapostolle e asseguraram os serviços de rolland como consultor. Seguindo-a por uma vinha empoeirada enquanto prova as uvas e fala das videiras antes da era da filoxera, nunca deixamos de pensar em Lapostolle como numa dessas mulheres chiques, elegantes e extremamente belas que vemos na rue du Faubourg Saint-Honoré. É apropriado que descreva a clos Apalta como o seu «vinho de alta costura». (Lapostolle produz também duas linhas no escalão dos 10 a 20 dolares.) as uvas, que são cuidadosamente seleccionadas na adega, vêm de um vinhedo quase centenário onde se entrelaçam as castas Cabernet, Merlot e Carmenère, no Vale de Colchagua, orlado por uma ferradura de montanhas nevadas.
A Carmenère é a arma secreta do chile, uma variedade em tempos muito disseminada em Bordéus e que foi redescoberta, em 1991 no chile, onde há anos era confundida com a Merlot. Tal como a Cabernet francesa, a uva carmenère pode ser algo vegetal e rústica, mas quando amadurece bem, tem uma textura sedosa e um travo apimentado a framboesa. ainda falta saber se esta casta pode vir a ser uma estrela isolada na indústria do vinho chileno, mas o espectacular Clos Apalta, que contém até 40% de Carmenère, é bastante eloquente sobre o potencial da uva num vinho de lote. O monstruoso Apalta de 2001 já é uma lenda no mundo vinícola, o de 2002 é um pouco menos potente, mas igualmente complexo, um vinho que pode ser confundido com uma mistura do melhor cabernet do Napa e de um Pauillac premier cru.
...Pode parecer muito dinheiro 70 ou 80 dolares por um vinho chileno -até compararmos os melhores deles com outros tintos do novo Mundo ao mesmo preço."
Um Hedonista na Adega
Jay McInerney

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